" Agora que o título captou a vossa atenção, vou falar-vos sobre o que aconteceu ontem com o Enzo Pérez. E vou fazê-lo sem reservas. Por isso, criançada e gente que não diz asneiras, cliquem noutro sítio qualquer.
Primeiro, as primeiras coisas. Vamos falar de instintos. Essa coisa primitiva que tentamos disfarçar. O mecanismo ação/reação, a crú.
Ação: O Enzo passa. Eu pergunto. Ele faz má cara. Continua a andar e atira para trás do ombro esquerdo um "A la mierda!”.
Reação: (…)
Reação mental: “ Fo…-se! Este gajo passou-se!”
Eu sei que o ideal seria eu ter pensado que estava ali a representar o interesse e a curiosidade portuguesas. Acho que o Enzo deveria ter pensado nisso. Mas, honestamente, naquele momento, nada disso me passou pela cabeça.
Segundo: a interpretação. Aquilo que fazemos depois. Os descontos que damos ou os sentimentos que acrescentamos.
Ponto prévio: Digo muitas asneiras. O Enzo ao pé de mim é um menino. Os meus amigos sabem. A minha mãe envergonha-se.
Segundo ponto prévio: Temos a obrigação de ser profissionalmente educados. Tenho um microfone que tem o peso de representar milhares de colegas de um lado e milhões de pessoas do outro. Pesará o mesmo que a bandeira que o Enzo Pérez carrega no peito. Eu lembrei-me disso. Ele esqueceu-se.
O desconto que lhe dou:
Aqui há dias, a caminho do Arena Fonte Nova, tocou-nos uma caminhada de quase 2 kms debaixo de trinta e tal graus e do sol castigador de Salvador da Bahia. O problema é que eramos só dois a alombar com câmera, tripé, computador de edição, outro computador, a minha mala, a mala do Rui. Não havia mão disponível para enxugar o suor que escorria cara abaixo. Algures, a mais de meia subida, há um desses ‘caras-cheios-de-frescura’ que topa as nossas credenciais e abranda o passo para me perguntar, alto e bom som: “E aí, amigo, vai dar para liberar um ingresso dos seus?”
Sei que a minha reação deveria ter sido outra mas, naquele momento, a língua nem ao coração se ligou. Ficou-se pelos intestinos. “E se fosses gozar com o c…, pá?”. Pois. Desculpa, mãe!
O Enzo deve estar a gostar tanto de estar no banco como eu gosto de levar baile ladeira acima. Sei que ele não tem desculpa. E eu também não.
Eu não deveria ter respondido. Ele não deveria ter dito aquilo.
Acho, contudo, que a indignação é legítima e pode ser um exercício individual ou colectivo. Quem ouviu aquilo tem o direito de se sentir como quiser. Vocês aí em casa, a RTP, os outros portugueses, os benfiquistas, os não-benfiquistas. Eu só peço ao Enzo Pérez que, da próxima vez, em Brasília, ele diga de frente o que tiver para dizer. Que alinhe a cara e os ombros comigo. Porque de tudo, o que menos gostei foi que ele tivesse falado para trás das costas. "
La réaction du journaliste qui voulait parler à Enzo.